segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Palavras rebeldes

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer".

Trecho de "São Bernardo", de Graciliano Ramos.

Escrever como lavar roupa não é tarefa nada fácil. O trecho acima me encanta não só por ser belamente bem escrito, mas por comparar um ofício pretensamente douto a outro, tido como simples, pobre. E pegar este segundo como exemplo para o primeiro.

As palavras sempre dizem alguma coisa, e se não fazemos este trabalho de "lavá-las", mostramos mais do que devemos, ou queremos. Aqui, neste blog inútil - e como gosto que ele seja  inútil! - as palavras não vêm alvas. Aqui as palavras são suadas, algumas tem gosto de lágrima e chegam cansadas. Tem palavra que acaba ficando pelo caminho, e não passa da barreira do meu pensamento.

Hoje as palavras saem dos meus dedos de maneira meio rebelde. Embora haja muito o que dizer, elas vêm mais para esconder do que para mostrar.  E com isso, dão voz ao meu silencio.


Grafopoema de Erivelton Busto Garcia, em Minilamina

4 comentários:

  1. muito bom Juliana, adorei o texto, ontem mesmo estava nessa tarefa de lavar roupa e como é difícil!! acho que consegui lavar e torcer uma vez, mas a roupa ainda está encharcada, são tantos pingos!! rs
    saiba que seu silêncio sem palavras causa saudades e curiosidade... que bom que logo chegam as palavras rebeldes! ;)

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  2. Ah, como esse blog inútil me encanta !
    ;)
    rssrs
    Escrever não é tarefa fácil, não mesmo. Me parece que quando escrevo sai somente aquilo o meu peito quer gritar, equanto a minha boca se cala..

    Parabéns pelo texto. Adorei.

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  3. Palavras são tiros.
    Furam o peito,
    encharcam a alma,
    atravessam o silêncio
    igual fio de luz
    em corrente contínua
    ou desencapado.

    Palavras são flechas.
    Quando acertam o coração,
    tonteiam,
    ou de dor,
    ou de prazer.

    Não se flerta impunemente
    com as palavras e seu sentido.
    Não se as deixa ao relento,
    descuidadas.
    Elas merecem carinho e água,
    sorrisos e ternura.

    Os casebres são tortos e vazios
    quando carentes de luz.
    As palavras são batatas quentes
    se deixadas ao vento.

    Palavras incomodam,
    palavras seduzem,
    palavras mordem.

    Palavras são vermes e brilhos,
    espinhos e pedras,
    canoas e picadas,
    árvores e rios,
    anéis e continentes.

    Palavras são oceanos,
    cascos e vida.

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  4. Adorei todas estas palavras. Valeu a pena a provocação!

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