segunda-feira, 11 de julho de 2011

Acidente de trabalho.

Decepcionada. Foi assim que me senti quando vi o comercial da Campanha de Prevenção de Acidentes de Trabalho que está sendo feita pelo Tribunal Superior do Trabalho. A iniciativa deles é boa até, pois há que se chamar atenção para o tema. No Brasil morre mais gente trabalhando do que devido a AIDS, e no entanto, os esforços governamentais na prevenção desta doença são muito maiores do que em relação aos acidentes e doenças do trabalho. O problema da campanha é que, infelizmente, ela repete preconceitos antigos;  a velha história de que o acidente é um problema de falta de conscientização.

Já seria ruim falar que o acidente de trabalho ocorre por causa de uma falta de cultura de prevenção nas empresas. Nunca pus fé neste argumento. As empresas investem em prevenção e em boas condições de trabalho  na medida que isto não as onera, ou na medida em que isto reverte-se em mais horas trabalhadas, como a Google, que descobriu há muito tempo as vantagens de oferecer  um ótimo ambiente de trabalho, conseguindo que seus funcionários voluntariamente passem mais tempo na empresa que em casa. 

Mas a  campanha do TST passa longe disso: culpa o trabalhador, e ainda usa a velha história da falta de utilização dos equipamentos de proteção individual, os EPIs.

As normas regulamentadoras brasileiras são bem claras em salientar que o uso dos EPIs são a ultima medida de prevenção a ser tomada, quando nada mais é possível de ser melhorado. Mas quando falamos de segurança do trabalho, as primeiras imagens que nos vêm são a de um capacete, um macacão, um colete, enfim, um EPI, estas produtos que movimentam o enorme mercado da segurança no trabalho.

De fato,  há que se reconhecer que pelo menos os comerciais veiculados na televisão chamam a atenção para o grave problema das mortes no trabalho - que são muito mais do que indicam as estatísticas. Mas ao mesmo tempo fazem o enorme desserviço de propagandear a preconceituosa idéia de que o trabalhador é descuidado. 

Por que diabos um trabalhador de uma obra não vai querer usar o cinto, o capacete, o óculos, etc? Entre tantos motivos, a campanha do TST escolhe o menos provável: porque ele não quer. Oras: se o capacete é desconfortável, se esquenta a cabeça, se o óculos cai toda hora, embaça; se a luva faz a mão escorregar e perder a aderência na ferramenta; se a obra tem prazo pra ser entregue e o cara tem que cumprir meta de construção por dia, será que ele vai usar o EPI? Se o trabalho dele é perigoso, sera que ele vai querer ficar se lembrando disso? Ou, para reunir coragem de andar num andaime a centenas de metros de altura, vai encarar o trabalho como desafio, e vai preferir pensar que não vai acontecer com ele um acidente?



Numa coisa a campanha acerta: na frase "E o local onde ele mais faz falta não é no trabalho". Com certeza, não é no trabalho mesmo. Porque se fosse, as empresas preservariam mais seus trabalhadores. Com a desregulamentação das leis trabalhistas, tão desejada pelo empresariado brasileiro, fica fácil descartar trabalhadores e contratar outros. Por que, então, gastar com saúde e segurança?

E de novo o comercial bate na trave:  ainda não é sobre esta realidade que está se referindo. Aliás, uma dose de realidade nestes comerciais iria bem: notem o quanto a criança corre para abraçar o pai no vídeo abaixo e me digam: desde quando pedreiro mora numa casa daquele tamanho?


Com tanta coisa escrita sobre saúde e segurança do trabalho, com tantas boas reflexões e pesquisas feitas, como o TST aparece com uma campanha dessa? Até o Ministério do Trabalho e Emprego, no  ano passado, reconheceu que o ato inseguro é uma falácia, e mudou o conteúdo da NR1.

Decepcionante.

E já que é pra falar de prevenir acidentes e doenças relacionadas ao trabalho e promover a saúde do trabalhador, o TST podia dar uma ajuda nisso daqui:


Cerest revela sucateamento e pressão contra fiscalização em Campinas 
A coordenadoria do Cerest (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador), de Campinas, confirmou as denúncias de sucateamento do órgão e revelou, durante reunião realizada ontem de manhã com funcionários, usuários e representantes de sindicatos, que deixou de implantar programas por falta de recursos e falta de funcionários. O órgão também confirmou a pressão de empresas contra a administração para limitar a atuação em casos de acidentes de trabalho e contaminações por produtos químicos.
De acordo com o coordenador-adjunto do Cerest, Alexandre Polli Beltrami, foi encaminhado ontem ao prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT) e ao secretário municipal de Saúde, José Francisco Kerr Saraiva, um ofício com dados da precariedade de condições em que o serviço funciona hoje.
Beltrami disse que, com a demissão de mais um médico, o Cerest passará a atuar com apenas dois profissionais da área - um deles dedicado exclusivamente ao serviço de vigilância feito em empresas. “Com isso, teremos só um médico no atendimento ao público”, ressaltou.
O Cerest funciona com financiamento compartilhado entre o Ministério da Saúde e a Prefeitura de Campinas, mas esses recursos nem sempre chegam no prazo previsto para o órgão, o que já comprometeu a implantação de serviços inseridos no PAM (Plano de Ação e Metas). “Posso citar o projeto de atendimento a acidentes de trabalho graves e o programa de saúde mental do trabalhador, entre outros”, ressaltou.
Beltrami revelou ter conhecimento de pelo menos um caso de pressão contra o órgão, de uma empresa que questiona a competência do Cerest para atuar em casos de acidentes e contaminações. “Para mim, o nome disso é intimidação. Seria um prato cheio para as empresas se nossas ações fossem inibidas”, disse Beltrami.
Os sindicatos de trabalhadores e associações de vítimas de acidentes de trabalho organizam uma agenda de manifestações e protestos contra o sucateamento do órgão. Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região, Jair dos Santos, o Cerest é uma conquista histórica dos trabalhadores que não pode ser alvo de um desmonte “inaceitável”.
“Não interessa para as empresas que tenhamos um local neutro para a avaliação de casos de saúde do trabalhador”, destacou. Para Santos, é fundamental o repasse de verbas da Rede Nacional de Atenção à Saúde do Trabalhador diretamente ao Cerest.
A Secretaria de Saúde disse ontem que não tinha conhecimento das reivindicações discutidas na reunião.

2 comentários:

  1. Já trabalhei na indústria e já vi muito acidente horrível, 9 ao longo de 20 anos, todos dignos de filme de terror. Braços, pernas, dedos e mãos arrancados, cortados ou esmagados. Falo com conhecimento de causa. Todos eles foram por imprudência do trabalhador, com excessão de um, onde uma falha mecânica (falta de manutenção) gerou o acidente. Nos outros 8 casos, os operários achavam que o EPI era coisa desnecessária ou que as normas de segurança eram papo furado. O simples fato de achar que andar sobre a linha amarela era besteira fez com que as pernas de um operário parassem debaixo de uma empilhadeira. Hoje ele não pisa em cima de nada. Essas pessoas sofrem muito por essas escolhas. "Por que diabos um trabalhador de uma obra não vai querer usar o cinto, o capacete, o óculos, etc?" Acredite, na maioria dos casos é porque ele não quer MESMO. Você é uma pessoa instruida, conhece muita coisa da vida. Muito trabalhador por ai, mal sabe escrever. Acha que sabe muito, faz isso todo dia, nunca aconteceu nada. O vírus na indústria chama-se "excesso de confiança". Acredite, ele existe e MATA.
    Uso dos EPIs NÃO são a ultima medida de prevenção, elas são MAIS uma medida que pode salvar um membro do seu corpo e em diversos casos, a vida. Normas dentro de uma indústria são feitas para serem seguidas. Pessoas se capacitam em segurança no trabalho e suas recomendações podem salvar muitas vidas. Há empresários que negligenciam sim, é fato! Melhores condições? Absolutamente, sem sombra de dúvidas! Punição para empresários safados que não tem coragem de colocar uma lâmpada numa linha de montagem? CERTEZA! Mas não diga que os trabalhadores não são descuidados. Na indústria dizemos que quanto mais velho, mais confiança e menos dedos nas mãos você tem. O Google é indústria de Software e como toda indústria ela quer LUCRO. Um ano numa indústria, lidando com o mais variado tipo de operário e você vai repensar seus conceitos.
    Há culpa, responsabilidade, razão e descuido por todos os lados. Mas se cada um fizer sua parte todos saem ganhando ou pelo menos vivos. Empresário não vê campanha, vê a conta bancária, portanto vamos exigir maiores punições aos negligenciadores. Operário precisa de ORIENTAÇÃO CONTÍNUA e boas condições de trabalho.

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  2. Caro Anônimo,

    Vejo que você e eu temos preocupações semelhantes, pois nós dois sabemos que acidentes podem ser evitados e o quanto as empresas negligenciam uma gestao com segurança, à medida que isto nao contribui com o aumento dos lucros. Mas eu de fato continuo discordando com você de que a questão principal á um "excesso de confiança" por parte dos trabalhadores. Isto que voce nomeia assim pode ser uma estratégia de defesa psíquica para enfrentar o medo. Acho difícil um trabalhador nao saber dos riscos que corre. Mas mais difícil ainda é largar o emprego. O melhor é pensar que não há risco. Christophe Dejours ficou conhecido depois de conversar com muito trabalhador e desenvolver esta teoria. Veja o livro A Loucura do TRabalho. E tantos outros. MAs o fato é que, embora o que você diga seja até visível, não diz respeito ao porquê acontece. Não são nos fenômenos visiveis que vamos encontrar a causa dos "acidentes" de trabalho, mas sim numa investigação séria que leve em conta a organização da atividade, e as metas que o trabalhador tinha que atingir. Há muito o que dizer, mas para este espaço, deixo estas linhas. E muito obrigada pela leitura do meu texto! Um abraço.

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