quarta-feira, 8 de junho de 2011

Histórias de Frepop

E mais um Frepop se aproxima. Há dois anos que eu conheci este evento, o Fórum Regional de Educação Popular do Oeste Paulista. No primeiro em que fui, em 2009, eu era apenas a namorada de um dos organizadores. Em 2010, já me considerava uma frepopeana. Hoje, sem o vínculo de 2009, continuo me sentindo assim.

Todo ano o Frepop convida pessoas de outros países que também trabalham com educação popular. Gente que vem patrocinada pelo evento, de diversos continentes, para contar suas experiências. Entre eles o sociólogo Moussa Diop, de Senegal; o professor University of Glasgow, da Escócia, Liam Kane, a ativista da Woza, em Zimbabwe, Tracy Doig, a porta-voz na ONU das comunidades indígenas do Chile, Soledad Calle, o doutorando italiano em antropologia que entende tudo das comunidades do Xingu, Paride Boletin, a ativista indiana Ajitha George, a militante indígena dos Charrúa, Gladys do Nascimento, o sociólogo chileno educador popular Edgardo Alvarez Puga, entre muitas outras pessoas interessantíssimas, com graduações universitárias honrosas, e outras igualmente interessantes sem títulos formais nenhum.

E isto é o que mais gosto no Frepop: esta mistura de gentes de diferentes culturas, status sociais, graus de instrução. A professora da educação básica pública do pequeno município interiorano almoçando ao lado do sociólogo chileno; fazendo perguntas à indiana, dando o seu depoimento aos pesquisadores presentes.

Não vai dar para comparecer mais ao ITAL, em Lins, e presenciar as discussões e celebrações de cultura e vida fantásticas que rolam em todo Frepop. Mas vale a pena contar uma das histórias mias interessantes que vivi por causa deste evento.

A maioria destes convidados que mencionei acima não fala uma palavra em português. Necessitavam de tradução para tudo, o que havia, mas nunca era suficiente. Em várias rodas de conversa servi de tradutora - mesmo não sendo boa nisso. Ao final do evento soube que Ajitha e Moussa teriam que passar um dia inteiro no aeroporto esperando a hora dos seus voos, devido ao horário dos ônibus que saem de Lins à São Paulo, para depois enfrentar mais 20, 25 horas de voo. Estadia cruel naqueles dias frios de São Paulo. Foi quando pensei que Ajitha e Moussa podiam ficar no meu apartamento enquanto esperavam a hora do embarque. Eles chegariam em Sao Paulo as 7 da manhã e o embarque era somente às 23h.

Adoraram minha oferta e vieram. Chegaram não às 7h, mas às 5h. Quase nao acreditei quando o interfone tocou de madrugada. De pijama, olhos vermelhos e cabelos "revoltosos", atendi a porta e encontrei Moussa, Ajitha, Tracy, que só falam inglês ou francês; os bolivianos Clara Quirino e seu filho Victor Tobala, que só falam espanhol, e Liam Kane, o único que falava português e inglês.

Hello, Welcome! Bienvenidos! Salut! Make yourself confortable! Oh my god! I don´t have bed for all of you, but this house is yours....

Moro num apartamento de 1 quarto. O que fazer com seis pessoas de quatro continentes diferentes que nem sequer falam a mesma língua entre elas? E onde colocar cinco malas enormes? Quase não havia onde todos se sentarem.

E então um dia lindo começou. Pensei que o melhor, naquele momento, era  um bom café da manhã. Liam  ajudou-me a preparar o café, enquanto os outros afastavam a mesa, puxavam as cadeiras, e ajeitavam minha sala. Conversamos, comemos, rimos muito sobre assuntos diversos do evento. Acomodei Clara e Vitor em minha cama de casal e ensinei a todos onde estavam roupas de cama e tudo o que necessitassem. E os deixei. Voltei somente para almoçar com eles e ajudá-los a chamar o táxi para o aeroporto.

Liam foi embora mais cedo. Quando cheguei, estavam os outros numa comunicação engraçada mas forte. Todos de bom humor. Depois do almoço Tracy, Clara e Victor embarcaram no táxi, e lágrimas escorreram na despedida entre todos nós. Passei o resto do dia com Moussa e Ajitha, que necessitava de ajuda com relação a obtenção do visto de entrada em Dubai. A sorte dela era que a agência de turismo que trabalhou para o Frepop era perto de minha casa. Então caminhamos até lá, pelo bairro de Higienópolis. Ela me contou de sua vida na Índia, com seu filho e seu marido, estas histórias da vida cotidiana que não se fala em palestras... De volta a casa, Moussa fez seu chá preto e nos serviu. Antes de irmos ao aeroporto, dormimos um pouco; Ajitha e eu dividindo o mesmo quarto, numa intimidade parecida com a que eu tinha com minhas colegas de república universitária. À noite lanchamos e conversamos sobre a possibilidade de um Frepop nordestino. Idéia minha que eles gostaram e que ainda não chegou o meu tempo de executar (mas quem se animar, pode começar!).

Fiz questão de levá-los ao aeroporto. Depois de passar um dia inteiro com eles, foi inevitável o aperto no coração em deixá-los. Nunca vou me esquecer do sotaque do inglês de Ajitha, do seu sorriso e do jeito de menear a cabeça, sutil e elegante. Não vou me esquecer da foto que tirei do Moussa enrolado no meu edredom amarelo, parecendo uma múmia (risos!), batendo o queixo com este frio que não existe em Senegal.

Eles me deram um dia lindo, cheio de afeto, de solidariedade, da alegria da convivência com alguém tão diferente de você, mas com os mesmos sonhos de um outro mundo possível.

Da esquerda para a direita: Vanessa, Moussa Diop, Tracy Doig, Amanda (tradutora de ingles), Soledad Calle, Ajitha George e Claudia.

Saudades... Saudações! Benvindos de volta! Bom Frepop para vocês!

Em tempo: O Frepop 2011 ocorrerá entre 19 a 23 de julho. Inscrições abertas!

1 comentários:

  1. Essas são as melhores experiências, histórias e lembranças dos encontros internacionais. Muito bonita a história que viveu, emocionante!

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